Anil Taneja,
Diretor, LITOSonline.com
Num mundo incerto e em rápida mudança, onde os modelos de negócio de setores inteiros são revolucionados e tornam-se obsoletos num piscar de olhos, é natural que um fenómeno semelhante esteja também a ocorrer na indústria da pedra natural.
Os profissionais tendem frequentemente a utilizar a palavra «crise» ao descrever uma situação. Talvez uma palavra mais adequada para descrever a situação da indústria da pedra seja «em transição». A indústria da pedra natural sempre foi parte intrínseca da civilização humana desde o início, mas também tem vindo a evoluir ao longo dos séculos. A fase atual de evolução ainda não é tão evidente nesta altura, mas uma nova transição já teve início.
Vamos destacar algumas das principais perturbações e outras forças que afetam a indústria.
Durante as últimas quatro décadas, verificou-se um aumento massivo no desenvolvimento e crescimento da indústria em muitos países, com a abertura de novas pedreiras de uma variedade impressionante de pedras naturais, o surgimento de novas unidades de transformação construídas com enormes investimentos e centenas de milhares de pessoas que encontraram emprego ao longo de toda a cadeia de valor. Era, talvez, inevitável que, após um crescimento tão rápido, o ambiente socioeconómico volátil e em constante mudança, a par dos desenvolvimentos tecnológicos, levasse a uma pausa num setor que se tornava cada vez maior, ano após ano, ao longo das últimas três a quatro décadas.
UM AMBIENTE SOCIOECONÓMICO DESAFIANTE
Apenas na última década, verificaram-se desenvolvimentos perturbadores graves:
1. A pandemia levou a um declínio significativo da atividade empresarial, o que enfraqueceu consideravelmente os balanços da maioria das empresas.
2. Após a pandemia, surgiram graves problemas relacionados com as elevadas taxas de frete e a disponibilidade de contentores, criando assim uma enorme pressão sobre os fluxos de caixa e tornando o planeamento quase impossível. Estes problemas persistem até ao mês de julho de 2026, em grande parte devido à guerra em curso no Golfo.
3. Ao longo dos últimos 15 anos, os avanços tecnológicos levaram ao surgimento no mercado da porcelana de grande formato, o que resultou numa grave perda de quota de mercado para a pedra natural em muitas aplicações onde esta costumava ser a escolha óbvia.
4. As alterações demográficas conduziram a uma grave escassez de mão-de-obra qualificada, especialmente nos países desenvolvidos. Embora a automatização na indústria tenha acelerado, nem tudo no setor da pedra natural pode ser automatizado. A mão-de-obra dispendiosa acabou por exercer uma pressão adicional sobre as margens ao longo de toda a cadeia de valor acrescentado.
NOVAS TENDÊNCIAS EM RESULTADO DE PERTURBAÇÕES
1. Em parte devido ao excesso de oferta no mercado e à concorrência feroz por parte de materiais alternativos, muitas empresas estão atualmente a experimentar novas texturas na pedra e a descobrir que os designers de interiores e os arquitetos adoram este «novo visual». Estas texturas, especialmente em 3D, conseguiram diferenciar esteticamente a pedra natural das alternativas e estão a criar um novo dinamismo na procura de pedra, especialmente na decoração.
2 Devido a questões logísticas, perturbações no abastecimento e incerteza quanto ao fornecimento, muitos arquitetos mostram-se relutantes em especificar materiais provenientes de países geograficamente distantes. Temem que os projetos possam sofrer atrasos e que os preços aumentem para além do orçamentado. Os materiais de origem local são frequentemente preferidos, ou os especificadores insistem que os materiais importados já se encontrem no país onde o projeto está a ser executado. Da globalização à localização ou regionalização, esta parece ser a reação defensiva em todo o mundo como forma de reduzir o risco.
3. A pedra natural é cada vez mais considerada, ainda mais do que antes, como um material de luxo pelos especificadores e é quase sempre a escolha preferida em projetos de luxo, ou nos casos em que o preço é uma consideração secundária. Em projetos comerciais, onde os prazos e os orçamentos apertados são frequentemente critérios fundamentais, ou onde as habitações e as renovações são realizadas com o objetivo de revenda, os materiais artificiais ganharam quota de mercado. Isto também significa que mesmo a pedra natural com o preço mais baixo por vezes perde frente a materiais artificiais de baixo custo. A consequência efetiva desta tendência é que a procura global de pedra natural no mercado se encontra, de certa forma, reduzida. A utilização de granito, por exemplo, está cada vez mais limitada aos exteriores, exceto, claro, no caso de pedras únicas e exóticas, que são o material de eleição na decoração de luxo.
4. Embora muito se tenha escrito sobre sustentabilidade e sobre como a pedra natural é o material mais sustentável, a realidade é que, na hora de tomar uma decisão, os projetistas, em geral, consideram-na um critério de menor importância, especialmente quando o preço é o critério mais importante. Com demasiada frequência, fala-se da sustentabilidade apenas por dizer, mas outros fatores prevalecem. Em projetos do setor público, é verdade que os arquitetos se têm mostrado mais sensíveis aos critérios de sustentabilidade e este argumento acaba por favorecer a pedra natural.
5. Algumas empresas estão a desenvolver novas aplicações para a pedra natural, mas estas ainda não atingiram uma massa crítica em termos de volume. A tendência, de um modo geral, é considerá-las produtos de nicho. «Interessante, mas não é algo que gere negócio suficiente» parece ser a atitude predominante. O foco dos profissionais do setor continua a centrar-se na maximização do retorno dos investimentos já realizados e há frequentemente uma relutância em sair da zona de conforto. As empresas de menor dimensão, ou aquelas cujos proprietários são relativamente jovens, têm-se mostrado mais ousadas na experimentação de novas aplicações, tirando melhor partido das modernas máquinas CNC e das novas possibilidades que estas oferecem. As novas aplicações podem incluir mobiliário, produtos como mesas de jantar, mesas de centro com elevado componente de design, mobiliário para exteriores, armários de cozinha, prateleiras para vinho, espreguiçadeiras, armários, etc.
6. Durante mais de uma década, desde 2010, parecia que a cor bege estava a sair de moda e a ser substituída pelo branco/cinzento e outros tons claros. Talvez uma nova geração de projetistas a entrar na profissão estivesse à procura de algo novo.
Mas, nos últimos três anos, o bege voltou à moda, e evidências empíricas sugerem que as cores mais escuras também estão a tornar-se populares novamente. Pedras castanhas, verdes e até vermelhas estão a encontrar maior aceitação no mercado. O travertino sempre foi popular.
CONCLUSÃO
Num ambiente empresarial muito desafiante, praticamente qualquer modelo de negócio tem de se adaptar constantemente e as empresas são forçadas a reinventar-se continuamente. Em última análise, um novo modelo de negócio atinge uma massa crítica e torna-se dominante. Durante as últimas 3 a 4 décadas, a indústria da pedra natural cresceu consideravelmente em dimensão, principalmente graças à produção de placas. A linguagem, também, era «industrial» — o crescimento medido em metros cúbicos extraídos, metros quadrados produzidos, volume de exportações em toneladas, etc. A indústria está agora a regressar a uma linguagem mais adequada ao seu caráter e à sua história — a do artesanato, da criatividade, da valorização e, acima de tudo, da singularidade, não apenas da matéria-prima, mas também do produto acabado. Mais autêntica, natural, claro, algo com que os seres humanos se identificam intuitivamente e mais próxima do espírito humano de imaginação e do desejo intrínseco e incansável de criar algo novo.
Essa transição, silenciosa, muitas vezes invisível, mas imparável, está agora a ocorrer na indústria da pedra natural.
